domingo, 26 de maio de 2013

Monogâmico adúltero

Mais uma sexta-feira na vida do trabalhador. Mais um fim de mês agoniante de dinheiro curto, expectativa das contas chegarem e chegar também a certeza de que o herdeiro de suas agonias não estava a caminho do mundo.

A barba já crescida e emaranhada era quase um benefício trabalhista por se pendurar nos edifícios em construção que começavam a fazer parte da orla da cidade. Além, é claro de lá de cima observar as banhistas em seus poucos trajes e gosmas bronzeadoras deitadas na praia.

Amigado há 3 anos com uma vendedora que pelos mesmos 3 anos antes de dormir deixava pronta a sua marmita e de vez em quando até um bolo para sobremesa, que no começo parecia comida de cachorro que só era encarado pelos pedreiros que realmente faziam jus à fama alimentar da profissão.

Suzana, a companheira, todo dia tinha alguma história para contar da caixa da loja que não fazia jus ao diploma de ensino médio completo quando resolvia falar, e toda semana escolhia um dia para levantar o “marido” do sofá para dar banho no cachorro. Um pastor alemão que teve a mãe de raça estuprada por um vira-lata que conseguiu pular o muro da casa, incentivado pelo cheiro que ela exalava naqueles dias. Mazelas do reino animal que ainda existia entre os racionais (?).

O cachorro era um companheiro de todas as folgas que rendiam algumas caminhadas pelo bairro, também segurança da casa, que com muito suor tinha um micro-ondas, geladeira, fogão, um computador velho, Dvd-player, e uma boa televisão onde os dois assistiam juntos aos jogos do Santa Cruz enquanto bebericavam uma cerveja, sim, o cachorro sempre pedia uma cervejinha na tigela, para acompanhar o dono, e latia quando ele gritava gol.

Mas esta sexta-feira mudou tudo.

Com pouco dinheiro ele foi com um amigo da obra bater um papo e resenhar sobre o jogo da final do campeonato que se aproximava. Com pouco dinheiro pediram de entrada a econômica e potente dose de pitú. Um real. Com cinco reais de cada eles já eram comentaristas internacionais e falavam sobre os jogos da Champions League.
Nesse dia ele só chegou em casa às 3h da manhã, sem muitas lembranças do que aconteceu depois que chegou em casa.

Acordou com um tapa enfurecido nas costas, pelado no sofá. Mal abriu o olho, Suzana esbravejava com uma bolsa abarrotada nas mãos, lhe xingava de todas as formas que existiam e até inventava comparações pejorativas inéditas.

- “Que marcas são essas nas suas costas ? Cabra safado ! Vou levar tudo, fique com essa sua nêga nova !” 

Ele não entendeu nada, sentou pelado no sofá, viu ela jogar o porta-retratos com a foto deles na parede, colocar a bolsa nas costas, abrir a bíblia perto do aparador próximo a porta e retirar o dinheiro que era a contribuição dela para as contas do mês, colocar a corrente no cachorro e abrir a porta.

Partiu sem fechar a porta, que ficava de frente à porta da vizinha. Uma velha fofoqueira que já estava olhando pelo olho mágico o barraco. Depois ainda sem entender muito, levantou-se e fechou a porta, pelado, para horror da velha que só aí se retirou do outro lado da porta e foi tomar o café da manhã já entusiasmada com a história que tinha em mãos para disseminar pelo bairro.

No fim do dia ele sentou na privada depois de comer uma gororoba que ele fez para matar a fome e sentiu uma dor incomum nas costas. Era bem onde estavam os ferimentos, olhou para a tampa da privada e percebeu o que tinha acontecido.

Ao chegar em casa de madrugada, tirou a roupa para se aliviar já que geralmente as bebidas mais fortes lhe causavam problemas digestivos rapidamente e lá deve ter dormido uma parte da madrugada encostando com toda a força as costas na tampa de plástico que em certa medida era cortante, antes de, provavelmente como sonambulo, deitar no sofá sem ao menos dar descarga no artesanato.

Depois que constatou o que aconteceu, lembrou que no dia seguinte era o jogo da final do campeonato e o Santa Cruz poderia ganhar o título num jogo contra o maior rival novamente.

- “Bosta! Ela levou o cachorro.”

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